Só a ponta do iceberg: seria a nossa destruição da natureza a culpada pelo coronavírus?

Apenas uma década ou pouco mais atrás, os cientistas pensavam que as florestas tropicais e os ambientes naturais intactos cheios de vida selvagem exótica eram uma grande ameaça para os seres humanos por abrigarem vírus e patógenos que levam a novas doenças, como ebola, HIV e dengue.

Agora, esse pensamento está começando a mudar de paradigma: será que não é a destruição humana da biodiversidade que cria as condições para novos vírus e doenças, como o coronavírus (COVID-19)?

Na esteira dessa formulação, tem emergido uma nova disciplina científica conhecida como “saúde planetária” que foca nas conexões cada vez mais visíveis entre o bem-estar de humanos, de outros seres vivos e de ecossistemas inteiros.

“Invadimos florestas tropicais e outras paisagens selvagens, que abrigam tantas espécies de animais e plantas – e dentro dessas criaturas, tantos vírus desconhecidos. Cortamos as árvores; matamos os animais ou os engaiolamos e os enviamos aos mercados. Rompemos os ecossistemas e liberamos os vírus de seus hospedeiros naturais. Quando isso acontece, eles precisam de um novo anfitrião. Muitas vezes, somos nós”, disse David Quammen, autor do livro “Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic” (em tradução livre, “Propagação: Infecções Animais e a Próxima Pandemia Humana”), ao New York Times.

De animais para seres humanos

As pesquisas científicas sugerem que surtos de doenças infecciosas como o ebola, a síndrome respiratória aguda grave (SARS), a gripe aviária e agora o COVID-19 estão aumentando. Os patógenos estão cruzando a fronteira entre animais e humanos e se espalhando rapidamente.

Os Centros para Prevenção e Doenças dos EUA estimam que três quartos das doenças novas e emergentes que infectam humanos se originam em animais.

Algumas condições, como raiva e peste, atravessaram essa fronteira há séculos. Outras, como o vírus de Marburg, que se acredita ser transmitido por morcegos, ainda são raras. E outras, como o COVID-19 e a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS), ligada a camelos, são novas para os seres humanos e estão se disseminando globalmente.

Mineração, construção de estradas, rápida urbanização e crescimento populacional

Em 2008, Kate Jones, da Universidade College London (Reino Unido), e seus colegas pesquisadores identificaram 335 doenças surgidas entre 1960 e 2004, sendo que pelo menos 60% delas vieram de animais.

De acordo com Jones, cada vez mais doenças zoonóticas são ligadas a mudanças ambientais e comportamento humano. A perturbação de florestas intocadas impulsionadas pela exploração madeireira, pela mineração, pela construção de estradas em lugares remotos, pela rápida urbanização e pelo crescimento populacional estão aproximando as pessoas de espécies animais que talvez elas nunca se aproximassem. Isso resulta em transmissão de doenças da vida selvagem para os humanos.

“Há muito mais de nós em todos os ambientes. Estamos entrando em lugares praticamente imperturbáveis e sendo expostos cada vez mais. Estamos criando habitats onde os vírus são transmitidos mais facilmente e, em seguida, nos surpreendemos por termos novos vírus”, argumentou Jones.

A cientista estuda como espécies em habitats degradados são mais propensas a carregar vírus que podem infectar humanos. “Sistemas mais simples sofrem de um efeito de amplificação. Destrua paisagens, e as espécies que sobram são as que passam doenças para humanos”, afirma.

Eric Fevre, da Universidade de Liverpool (Reino Unido), complementa dizendo que o risco de patógenos pulando de animais para seres humanos sempre existiu; a diferença é que agora essas doenças são igualmente propensas a aparecer em ambientes urbanos e naturais.

“Criamos populações densamente compactadas, onde, ao nosso lado, estão morcegos, roedores e pássaros, animais de estimação e outros seres vivos. Isso cria intensa interação e oportunidades para que as coisas se movam de uma espécie para outra”, esclarece.

Nos EUA, por exemplo, onde os subúrbios fragmentam florestas, o risco de humanos contraírem a doença de Lyme tem aumentado. “Alterar o ecossistema afeta o ciclo complexo do patógeno. As pessoas têm mais chances de serem picadas por um carrapato que carrega a bactéria”, disse o ecologista Thomas Gillespie, professor da Universidade de Emory (EUA).

Ponta do iceberg

Em outras palavras, nós estamos criando as condições perfeitas para o espalhamento de doenças ao reduzir barreiras naturais entre animais que hospedam vírus e nós mesmos.

“Os patógenos não respeitam os limites das espécies. Não estou surpreso com o surto de coronavírus. A maioria dos patógenos ainda não foi descoberta. Estamos na ponta do iceberg”, destacou Gillespie.

Gillespie crê que devemos esperar “plenamente” a chegada de uma gripe pandêmica, bem como esperar mortalidades humanas em larga escala e outros patógenos com outros impactos. “Uma doença como o ebola não se espalha facilmente. Mas algo com uma taxa de mortalidade do ebola espalhada por algo como o sarampo seria catastrófico”, afirma.

Saúde planetária

Tendo em vista tudo o que foi falado, bem como o fato de que os pesquisadores da saúde humana raramente consideram os ecossistemas naturais ao nosso redor, cientistas como Richard Ostfeld, do Instituto Cary de Estudos sobre Ecossistemas (EUA), estão desenvolvendo uma nova disciplina chamada de “saúde planetária” que analisa os links entre a saúde humana e o ecossistema.

“Existe uma má compreensão entre os cientistas e o público de que os ecossistemas naturais são uma fonte de ameaças para nós. É um erro. A natureza representa ameaças, é verdade, mas são as atividades humanas que causam o dano real. Os riscos à saúde em um ambiente natural podem ser muito piores quando interferimos”, argumenta.

Um exemplo é o caso dos ratos e morcegos, animais fortemente relacionados com o espalhamento de doenças zoonóticas.

“Roedores e alguns morcegos prosperam quando perturbamos os habitats naturais. Eles são os mais propensos a promover transmissões [de patógenos]. Quanto mais perturbamos as florestas e os habitats, maior o risco que enfrentamos”, aponta.

Mercados informais de animais

No geral, os cientistas acreditam que vírus e outros patógenos passem de animais para humanos em muitos mercados informais que fornecem carne fresca e animais vivos a populações urbanas em rápido crescimento. Em muitos desses locais, animais são abatidos, cortados e vendidos na hora.

Um desses estabelecimentos em Wuhan, inclusive, foi considerado um potencial ponto de partida para a atual pandemia de COVID-19 pelo governo chinês. Lá, vendia-se vários animais selvagens, incluindo filhotes de lobo, salamandras, crocodilos, escorpiões, ratos, esquilos, raposas, civetas e tartarugas. Mercados semelhantes na África Ocidental e Central vendem macacos, morcegos, ratos, bem como dezenas de espécies de aves, mamíferos, insetos e roedores.

“Os mercados informais são uma tempestade perfeita para a transmissão de patógenos entre espécies”, declara Gillespie. “Sempre que você tiver novas interações com uma variedade de espécies em um só lugar, seja em um ambiente natural como uma floresta ou um mercado de animais vivos e frescos, poderá ocorrer um evento de propagação”.

Proibição é a resposta?

O mercado de Wuhan, juntamente com outros que vendem animais vivos na China, foi fechado pelas autoridades. Além disso, o governo chinês proibiu o comércio e o consumo de animais silvestres, exceto peixes e frutos do mar.

Infelizmente, alguns cientistas não creem que este tipo de proibição seja a resposta. “Não é justo demonizar lugares que não têm geladeiras. Esses mercados tradicionais fornecem boa parte da comida para a África e a Ásia”, disse Jones.

Delia Grace, epidemiologista e veterinária do Instituto Internacional de Pesquisa em Pecuária (Quênia), complementa que esses mercados são fontes essenciais de alimento para centenas de milhões de pessoas pobres, e que é impossível se livrar deles. Proibições poderiam piorar ainda mais a situação, forçando comerciantes à clandestinidade, onde poderiam prestar ainda menos atenção à higiene.

Em vez de apontar o dedo para os mercados informais, os especialistas dizem que uma saída seria considerar o crescente comércio de animais silvestres. Estes são hospedeiros naturais de muitos vírus, enquanto as evidências da ligação entre mercados informais e doenças não são sempre tão claras.

E o que mais podemos fazer sobre tudo isso?

Certamente, precisamos mudar nossa relação com o meio ambiente. As demandas por madeira, minerais e recursos naturais levam a paisagens degradadas e perturbação ecológica que por sua vez levam a doenças.

Jones crê que precisamos pensar na biossegurança global ao encontrar os pontos fracos, assim como reforçar a prestação de cuidados de saúde nos países em desenvolvimento.

“Os riscos são maiores agora. Eles sempre estiveram presentes e estão lá há gerações. São as nossas interações com esse risco que devem ser alteradas”, completa Brian Bird, pesquisador da Universidade da Califórnia (EUA). “Estamos em uma era de emergência crônica. É mais provável que as doenças viajem mais e mais rápido do que antes, o que significa que devemos ser mais rápidos em nossas respostas. Precisamos de investimentos, mudança no comportamento humano e ouvir as pessoas em um nível comunitário”.

Bird acha que a chave é a educação, ou seja, compartilhar informações e espalhar mensagens sobre patógenos e doenças a caçadores, madeireiros, comerciantes de mercados e consumidores.

“Essas propagações começam com uma ou duas pessoas. As soluções começam com educação e conscientização. Precisamos conscientizar as pessoas de que as coisas estão diferentes agora. Aprendi trabalhando em Serra Leoa com pessoas afetadas pelo ebola que as comunidades locais têm fome de informações, desejam ter informações. Eles querem saber o que fazer. Eles querem aprender”, defende.

Também precisamos repensar nossa infraestrutura urbana, particularmente em regiões financeiramente menos favorecidas. Enquanto os esforços de curto prazo são geralmente focados em conter a propagação da infecção, a longo prazo temos que revisar nossas abordagens atuais de planejamento e desenvolvimento urbanos.

A ideia é estar preparado, pois novas doenças infecciosas provavelmente continuarão a se espalhar rapidamente.

“Não podemos prever de onde virá a próxima pandemia, por isso precisamos de planos de mitigação para levar em consideração os piores cenários possíveis. A única coisa certa é que a próxima certamente virá”, conclui Bird. [TheGuardian]

Fonte: Hypescience


Créditos: Ambiente Brasil

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