ONU usa dados de satélites para enfrentar secas e enchentes na África e Ásia

Em março de 2018, o Quênia foi palco da pior enchente do país desde 1997. A inundação deixou mais de 300 mil pessoas desabrigadas. Mas um mês antes, a preocupação da nação africana era com a pior seca desde 2010.

Para ajudar esse e outros países a lidar com estiagens e enchentes, a ONU Meio Ambiente implementa uma plataforma de monitoramento em tempo real de bacias hidrográficas. Iniciativa usa dados de satélites para orientar estratégias de prevenção.

Plataforma online disponibiliza informações em tempo real sobre clima, nível das bacias e oscilações demográficas. Foto: ONU Meio Ambiente/Nick Greenfield
Plataforma online disponibiliza informações em tempo real sobre clima, nível das bacias e oscilações demográficas. Foto: ONU Meio Ambiente/Nick Greenfield

Em março de 2018, o Quênia foi palco da pior enchente do país desde 1997. A inundação deixou mais de 300 mil pessoas desabrigadas e devastou cerca de 85 quilômetros quadrados de terras agrícolas. Mas um mês antes, a preocupação da nação africana era com a pior seca desde 2010 — em fevereiro, 3,4 milhões de quenianos passavam fome por causa da estiagem que se prolongou desde 2017.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) alertava no início do ano que a escassez já havida deixado 482 mil crianças em situação de má nutrição aguda. A crise afetou 23 dos 47 condados do país. Cerca de 500 mil pessoas ficaram sem água.

A convivência com excesso e insuficiência de chuvas está se tornando o novo normal em muitas partes do mundo, segundo a ONU Meio Ambiente. Secas e enchentes são cada vez mais frequentes, mais intensas e menos previsíveis. As mudanças climáticas podem ser o principal fenômeno por trás desse cenário, mas outras problemáticas — crescimento populacional e expansão da malha urbana, pressões da agricultura e da indústria — agravam as consequências para a população.

O Instituto de Recursos Mundiais e organizações parceiras estimam que inundações causam prejuízos anuais de 96 bilhões de dólares para o Produto Interno Bruto (PIB) global. Já as estiagens custam anualmente, apenas ao setor agrícola, um valor de 6 a 8 bilhões de dólares, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

O especialista da ONU Meio Ambiente, Yegor Volovik, aponta que, para contornar os danos econômicos e humanos desses eventos naturais, é fundamental ter capacidade de prever riscos.

“Isso é especialmente importante em contextos transfronteiriços, onde recursos hídricos são compartilhados entre dois ou mais países. Com acesso aos dados e informações certos, governos e autoridades hídricas podem se planejar juntos para superar esses desafios, apesar da competição política e econômica”, afirma.

O organismo internacional lidera um projeto de cooperação entre seis nações. Em parceria com a Associação Internacional da Água e a DHI Water & Environment, a agência da ONU trabalha com dez organismos de gestão hídrica para monitorar três bacias hidrográficas: o Lago Vitória, dividido entre Quênia, Uganda e Tanzânia; a bacia do rio Volta, que atravessa Burkina Faso, Gana, Costa do Marfim, Benim, Mali e Togo; e a bacia do rio Chao Phraya, na Tailândia.

A iniciativa criou um sistema online piloto, alimentado em tempo real com dados meteorológicos, hidrográficos e populacionais, muitos deles coletados por satélites que orbitam o planeta Terra. O Portal de Enchentes e Secasconcentra e traduz informações de acesso público, mas dispersas entre diferentes plataformas.

“Existem satélites que países e regiões, como os Estados Unidos e a União Europeia, lançaram e que estão coletando dados sobre clima. Isso está gratuitamente disponível para qualquer um, mas não (está) realmente acessível”, explica Katherine Cross, da Associação Internacional da Água.

“O sistema processa esses dados e os coloca em formatos utilizáveis”, completa.

Instalações de esgoto e água em Kisumu, no Quênia. Foto: ONU Meio Ambiente/Nick Greenfield
Instalações de esgoto e água em Kisumu, no Quênia. Foto: ONU Meio Ambiente/Nick Greenfield

O portal produz gráficos e previsões de cenários meteorológicos, que podem ser integrados ao planejamento de governos locais.

“É importante porque ter essa informação a tempo pode nos ajudar a planejar melhor, para que, no nível operacional, não haja surpresas”, afirma George Odero, líder da equipe de Segurança Hídrica da Companhia de Água e Esgoto de Kisumu, cidade que margeia o Lago Vitória no Quênia.

A ONU Meio Ambiente promoveu um treinamento no município, com a participação de técnicos quenianos e também tanzanianos e ugandeses.

“Por exemplo, se sabemos que haverá chuva na próxima semana e que precisaremos fazer muito bombeamento, então, checamos as bombas. Se sabemos que haverá seca nos próximos meses, então começamos a alertar as pessoas para conservar água e verificamos os canais que as abastecem”, completa Odero.

Mas além de orientar gestores na preparação para cheias ou tempos de escassez, a inciativa das Nações Unidas também fomenta a cooperação transnacional. Os encontros de capacitação para uso da plataforma também têm sido oportunidades para criar novas parcerias entre países que usam as mesmas fontes de água.

“Qualquer captação do Lago (Vitória) vai afetar os outros serviços e atividades que acontecem dentro da bacia, sejam atividades agrícolas ou industriais”, aponta o oficial de Programas da Associação Internacional da Água, Kizito Masinde. “Eles têm de encontrar um jeito de cooperar.”

Após quatro anos de implementação da fase de testes do Portal de Enchentes e Secas, a ONU Meio Ambiente e seus parceiros esperam ampliar a plataforma para incluir novos países e bacias.

“Acho que há bastante potencial”, avalia Bertrand Richaud, da DHI. “Vimos interesse de muitas organizações internacionais e transfronteiriças, da Amazônia até as bacias da África, Europa e Rússia.”

O projeto Portal de Enchentes e Secas é financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente.

Fonte: ONU


Créditos: Ambiente Brasil