Onda de calor está transformando o gelo da Groenlândia em lama. E isso é uma péssima notícia

Águas derretidas durante o verão se acumulam em um lago na superfície da camada de gelo na Groenlândia.
FOTO DE JAMES BALOG/ NAT GEO IMAGE COLLECTION

A COBERTURA DE GELO DA GROENLÂNDIA, no extremo norte do planeta, não está nada bem.

A onda de calor que assolou a Europa no fim de julho agora migrou para o norte, estacionando sobre a Groenlândia. Com o aumento das temperaturas atmosféricas sobre o gelo, a cobertura de gelo reagiu da única maneira possível: derretendo. Até a semana passada, mais da metade da superfície da camada de gelo da Groenlândia havia derretido e virado lama.

Essa é a segunda grande massa de calor a atingir a camada de gelo nesta estação e a segunda a provocar o degelo de vastas extensões da camada de gelo. As ondas de calor foram particularmente impactantes porque sucederam um inverno e uma primavera amenos e secos, que prepararam a camada de gelo para o derretimento. O resultado desse cenário brutal foi um verão com um degelo tão intenso que deve alcançar ou quebrar o recorde de maior perda d’água já registrada.

A extensão do degelo já está bem além do observado normalmente nesta época do ano, contou Ruth Mottram, cientista polar do Instituto Meteorológico Dinamarquês.

“Esses são recordes que não queremos quebrar”, afirma.

Em breve, o fenômeno será corriqueiro

Até agora, tudo indica que 2019 se equiparará ao ano de pior degelo já registrado: 2012.

Os cientistas estimaram que, no pior momento, em julho de 2012, 97% da superfície da camada de gelo da Groenlândia passava por algum grau de derretimento — incluindo o gelado interior da camada, com uma espessura de mais de 1,6 quilômetro, cujo derretimento raramente foi observado.

As águas derretidas da camada de gelo aumentaram tanto a vazão dos rios que estouraram pontes nas cidades costeiras. Cientistas, ao saírem de suas estações de estudo, afundaram os pés em uma inesperada superfície lodosa.

Até o fim de julho de 2012, a cobertura de gelo tinha perdido cerca de 250 bilhões de toneladas em material derretido, o bastante para elevar o nível global do mar em 0,8 milímetro.

O número é bem próximo da estimativa de 248 bilhões de toneladas perdidas até agora neste ano, segundo observações feitas por Marco Tedesco, cientista polar do Observatório Terrestre Lamont-Doherty da Universidade de Colúmbia.

“Estamos basicamente em um ritmo no qual isso será inevitável. Estamos nos aproximando do recorde de 2012”, afirma ele.

Somente semana passada, a camada de gelo perdeu aproximadamente sete bilhões de toneladas de conteúdo. É água suficiente para encher quase três bilhões de piscinas olímpicas e quase o dobro (cerca de 1,75 vez) do quanto se perderia por dia em um ano normal.

Talvez possa parecer pouco, mas as perdas estão aumentando rapidamente. O nível médio do mar no mundo subiu entre 17 e 21 centímetros no último século e aproximadamente 40% dessa elevação ocorreu após 1993. A cada ano, o derretimento do gelo contribui cada vez mais para essa elevação e é possível que o ritmo de derretimento tenha aumentado seis vezes desde 1979.

Até 2100, a aceleração da perda de gelo e do derretimento da superfície de gelo da Groenlândia poderiam despejar entre 5 e 33 centímetros de água a mais no mar. Se toda a camada de gelo derretesse — algo que não acontecerá tão rápido segundo nenhuma projeção científica — o nível do mar no mundo subiria em média 7 metros.

Esta estação não será, isoladamente, o fator decisivo para determinar o nível do mar do planeta. Contudo, somada a todas as demais, provocará um impacto.

Círculo vicioso

Partes da camada de gelo da Groenlândia derretem em todo verão, pois a Terra inclina o hemisfério norte na direção do Sol. Nas bordas da camada de gelo, isso pode ser observado por meio dos rios que jorram e das piscinas de azul cristalino formadas pelas águas derretidas que se espalham pela superfície de gelo.

No entanto, normalmente, o derretimento se limita a essas extremidades e a perda proveniente do derretimento é compensada— ao menos em parte — pela queda de neve. A neve recente também ajuda a camada de gelo a se manter brilhante e espelhada, refletindo de volta a entrada da radiação solar. Por outro lado, a neve mais antiga perde as bordas pontiagudas de flocos de neve e a textura macia, que ajudam a refletir a luz, e congela em uma massa mais sólida e menos reflexiva, que absorve o calor do Sol, explica Mottram.

Durante o inverno, pouquíssima neve caiu sobre a borda oeste da camada de gelo, o que fez com que grandes extensões da camada de gelo ficassem ainda mais escuras do que o normal com a chegada do calor do verão.

Então, quando veio a primeira onda de calor do verão em junho, até 45% da camada de gelo em média alcançou o ponto de fusão — bastante acima dos 10% geralmente observados nessa época do ano. As temperaturas atmosféricas oscilaram entre 10 e 15oC acima do normal. Ao longo de um período quente com duração de nove dias, a camada de gelo perdeu aproximadamente 80 bilhões de toneladas em material derretido. Até que o calor se dissipasse, os cientistas estavam especulando que esta estação poderia quebrar recordes.

E como o gelo parcialmente derretido é mais escuro do que a neve recente, o fenômeno tornou a camada de gelo vulnerável a eventuais ondas de calor futuras.

“É como uma preparação para um degelo posterior”, afirma Mottram.

Quando a última onda de calor começou a se movimentar para o norte, os cientistas previram um novo e imenso derretimento na ilha. Até o momento, o cenário está se desenrolando de acordo com as projeções dos cientistas.

O futuro já chegou?

Os cientistas já sabem que as mudanças climáticas exerceram um papel no prolongamento e na intensificação das temporadas de derretimento na Groenlândia; em 2012, o derretimento nas bordas da camada de gelo se iniciou um mês antes comparado a três décadas atrás.

Entretanto a grande questão é se essa magnitude de derretimento extremo, ocorrida no verão, logo se tornará comum.

Alguns cientistas, como Xavier Fettweis, desenvolvedor de modelos de cobertura de gelo na Universidade de Liège, acreditam que sim.

O volume e a intensidade do derretimento atual condizem com o que os modelos preveem para quase todos os próximos verões até 2050, afirma ele. Assim, verões recordistas como este ou o de 2012 deixarão de ser excepcionais. Já estamos rumando para esse caminho, prossegue ele.

“Não se trata de um único verão quente isolado entre vários mais frescos. Esse tipo de anomalia se repetiu neste ano e, da mesma maneira, em 2016, 2012, 2011, 2009, 2008 e assim por diante”, disse ele.

Ainda estão sendo estudados os pormenores exatos do que está acelerando o derretimento da camada de gelo. No entanto alguns cientistas acreditam que parte do motivo esteja relacionado com a corrente de jato, uma faixa sinuosa de correntes de ar que circula pelo planeta, estagnando padrões meteorológicos em determinadas regiões.

O formato da corrente de jato do Hemisfério Norte é controlado ao menos em parte pelo gradiente de temperatura entre o Equador e o Ártico. O Ártico aqueceu muito mais rápido que o restante do planeta — cerca de 1,8oC somente nos últimos 20 anos— alguns cientistas acreditam que o resultado é uma corrente de jato mais sinuosa e mais vagarosa do que o normal.

Essa alteração faz com que os padrões meteorológicos — como a onda de calor escaldante ocorrida na Europa na semana passada ou as chuvas devastadoras que provocaram enchentes no centro-oeste dos Estados Unidos na primavera — fiquem estagnados no local por mais tempo, afirmou Jennifer Francis, cientista atmosférica do Centro de Pesquisas Woods Hole.

A estagnação, por sua vez, aumenta a possibilidade de derretimento quando períodos de calor permanecem por mais tempo sobre a Groenlândia.

“Estamos observando os recordes serem quebrados cada vez mais rápido com o decorrer do tempo”, afirma Francis. “Eles estão nitidamente ligados ao aumento dos gases de efeito estufa na atmosfera — são um sintoma claro das mudanças climáticas.”

Fonte: National Geographic


Créditos: Ambiente Brasil

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