Nova espécie de louva-a-deus da Mata Atlântica homenageia Museu Nacional

Vates phoenix é a mais nova espécie de louva-a-deus brasileira. Acima: montagem de fotos com fêmea de Vates phoenix (Foto: Lucas Fiat/Projeto Mantis)

Entre as mais de 900 espécies de louva-a-deus que faziam parte do acervo do Museu Nacional, um pequeno espécime não identificado chamou a atenção dos biólogos Leonardo Lanna e João Felipe Herculano. Membros do Projeto Mantis, que busca estudar e divulgar espécies do inseto encontradas na Mata Atlântica, os pesquisadores perceberam que aquele animal com cerca de 6 centímetros, asas verdes e uma bela cabeça em forma de coroa era uma espécie completamente nova.

Em artigo publicado recentemente no European Journal of Taxonomy, os pesquisadores descreveram pela primeira vez o Vates phoenix, que agora faz parte do leque de 250 espécies de louva-a-deus registradas no Brasil, o país com a maior diversidade de espécies do inseto.

Macho de Vates phoenix e suas asas translúcidas (Foto: Lucas Fiat/Projeto Mantis)

Após encontrar um espécime não identificado na natureza, os pesquisadores recorreram à coleção de louva-a-deus do Museu Nacional para descobrir a que espécie ele pertencia. Lá, acharam mais três exemplares parecidos com o animal, mas que também não haviam sido descritos. Animados, estavam diante da descoberta de uma nova espécie. 

Em 2017, os biólogos partiram em uma expedição com a National Geographic Society para encontrar mais indivíduos semelhantes, entre outros animais raros e potencialmente novos. Na Reserva Ecológica de Guapiaçu, a 97 quilômetros da capital fluminense, os biólogos encontraram espécimes vivos do macho. Um ano depois, em 2018, acharam uma fêmea, a peça que faltava para que pudessem realmente descrever a nova espécie.

No mesmo ano, o Museu Naconal foi consumido pelas chamas e, com isso, a coleção de louva-a-deus da instituição se perdeu. “Quando descobrimos os espécimes, o museu ainda estava de pé”, lembra Lanna. “O incêndio ocorreu enquanto pensávamos no nome da nova espécie. Isso nos afetou muito, e a todos os pesquisadores do Brasil, porque a história científica e biológica do país estava ali.”

Daí porque os biólogos decidiram homenagear a instituição. “Não queríamos um nome muito óbvio. Queríamos simbolizar essa espécie como o renascimento da coleção de louva-a-deus do Museu Nacional. Por isso escolhemos a fênix, ave mitológica que renasce das cinzas”, explica Lanna, que espera que os espéciemes retornem ao museu quando ele for reconstruído. “É sobre a crença de que ele vai conseguir crescer e se tornará forte novamente.”

A espécie

Antes de ser descrita, os espécimes de Vates phoenix eram muito confundidos com espécies do gênero Vates que habitam a Amazônia. Nativos da Mata Altântica, eles revelaram ser muito diferentes dos primos do norte do país.

Suas principais características são os grandes lobos nas pernas, a camuflagem marrom com asas verdes e uma protuberância semelhante a uma coroa na cabeça — em espécies amazônicas, ela lembra mais um chifre.

Como de costume entre os louva-a-deus, machos e fêmeas da nova espécie são muito diferentes. As fêmeas têm asas verdes, camulhando-as como uma folha, enquanto as asas dos machos são translúcidas. Eles também têm estruturas em forma de S em suas antenas, o que facilita na hora de captar os feromônios das fêmeas – que, por sua vez, têm antenas finas e curtas. Os machos medem cerca de 6 centímetros e as fêmeas costumam ser um pouco maiores, com 6,5 centímetros ou mais.

Protuberância na cabeça em forma de coroa é uma característica da espécie Vates phoenix. Macho tem antena com pequenas estruturas em S (Foto: Lucas Fiat/ProjetoMantis)

Vates phoenix pode ser encontrado em áreas de Mata Atlântica do norte ao sul do estado do Rio de Janeiro e tem alguns espécimes registrados em Ubatuba, no litoral de São Paulo.

Seu comportamento ainda é um mistério. Como não foram capturados indíduos jovens ou em habitat natural — foi usada uma técnica com fonte luminosa para atraí-los — os pesquisadores ainda não sabem como esses insetos se comportam, mas a aposta é que eles vivam nas copas da árvores.

Projeto Mantis

O artigo publicado na European Journal of Taxonomy foi assinado ao lado do experiente entomólogo peruano Julio Rivera e dos pesquisadores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro Sávio Cavalcante e Maria Lúcia França Teixeira. As imagens da espécie foram feitas por Lucas Fiat, diretor de arte do Projeto Mantis. “A fotografia contribui para a divulgação da espécie e na identificação também, inclusive pela população”, afirma Lanna.

Todos os animais são mantidos vivos após sua captura e criados até a morte natural pelos membros do projeto, que organizam palestras e exposições para conscientizar as pessoas da importância dos louva-a-deus para o ecossistema. “Como os criamos vivos, é muito mais fácil conectar as pessoas, pois o louva-a-deus é um inseto inofensivo”, conta. “Geralmente encaramos insetos como um problema, uma ‘praga’ ou um transmissor de doenças. Mas, na verdade, eles constituem a maior biodiversidade de animais do planeta e são a base de tudo. Buscamos conscientizar as pessoas sobre isso.”

Fonte: Revista Galileu


Créditos: Ambiente Brasil

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