Mortes no rio, acesso de loucura, ataque de onça: conheça a expedição científica que deu origem ao Herbário do Museu Nacional

Pintura de Rugendas, em 1835, retratando uma comunidade indígena na selva
Pintura ‘Ponte de Cipó’, de Johann Moritz Rugendas, feita em 1835, durante expedição Langsdorff / Reprodução de imagens Pablo Diener – Tratamento Entrelinhas Editora

Uma jornada de oito anos, de 1821 a 1829, que percorreu seis estados brasileiros. Dos 39 homens da tripulação, apenas 12 chegaram vivos ao destino. Um dos mortos foi atacado por uma onça. Outro desapareceu nas águas do rio Guaporé. Nem o comandante escapou: perdeu o juízo, depois de contrair malária, em plena selva amazônica.

Contando assim, até parece roteiro de ficção. Mas são acontecimentos que fizeram parte da mais importante expedição científica que cruzou o Brasil no século 19: a Langsdorff. Seu objetivo era coletar amostras da flora e da faunabrasileiras e estudar os costumes de povos indígenas.

A expedição, tão ousada quanto trágica, está ligada à história do Herbário do Museu Nacional, destruído por um incêndio em setembro. Com mais de 550 mil amostras de plantas, a coleção de botânica faz parte dos 10% do acervo que, segundo a vice-diretora do museu, Cristiana Serejo, escapou do fogo. O motivo é que, alguns meses antes, o herbário tinha sido transferido para um prédio novo, distante do antigo palácio imperial.

Foi um dos expedicionários da Langsdorff, o biólogo alemão Ludwig Riedel que fundou a seção de botânica do Museu Nacional. E, mais, tornou-se seu primeiro diretor, em 1831. Além disso, Riedel doou para o acervo algumas das amostras de plantas que coletou durante a expedição.

A expedição Langsdorff foi financiada pelo império russo. Segundo o historiador Boris Komissarov, da Universidade de São Petersburgo, o czar Alexandre I desembolsou 330 mil rublos, quantia considerada alta para a época. Com o dinheiro, o então cônsul-geral da Rússia no Brasil, Georg Heinrich von Langsdorff, um alemão naturalizado russo, organizou a expedição.

Além de escravos, remadores e guias, Langsdorff contratou alguns dos mais respeitados cientistas da época, como Riedel, o zoólogo francês Edouard Ménétriès e o astrônomo russo Nester Rubtsov. O próprio Langsdorff participou da expedição.

Também contratou dois desenhistas para registrar tudo o que vissem pelo caminho, das fazendas das Minas Gerais às aldeias indígenas da Amazônia – as câmeras fotográficas ainda não tinham sido inventadas. Eram eles: o alemão Johann Moritz Rugendas e o francês Hercules Florence. Cerca de 120 desenhos e aquarelas, além de 36 mapas, foram produzidos durante a viagem.

Pintura retratando o biólogo alemão Ludwig Riedel, que participou da expedição e acabou fundando a seção de botânica do Museu Nacional
O biólogo alemão Ludwig Riedel participou da expedição Langsdorff e acabou fundando a seção de botânica do Museu Nacional / Reprodução de imagens Pablo Diener – Tratamento Entrelinhas Editora

‘Temos diante dos olhos um véu escuro’

A Expedição Langsdorff pode ser dividida em duas etapas: uma terrestre (1821-1825) e outra fluvial (1826-1829).

“Começamos hoje um caminho novo, ainda não trilhado por ninguém”, escreveu no dia 22 de junho de 1826, dia da partida de Porto Feliz, a 125 km de São Paulo, para Santarém, no Pará, pelo rio Tietê. “Temos diante dos olhos um véu escuro. Deixamos o mundo civilizado para viver entre índios, onças e macacos”.

Depois de excursionar pelo Rio de Janeiro e Minas Gerais, entre vilas, povoados e fazendas, a expedição seguiu para São Paulo e, de lá, para a Amazônia. Ao todo, foram percorridos, no lombo de mulas ou em canoas cavadas em troncos grossos, 17 mil quilômetros.

“O ambiente não era dos mais harmoniosos. Houve muitos conflitos. O primeiro deles com Rugendas. O pintor e Langsdorff se desentenderam várias vezes”, explica a historiadora Maria de Fátima Costa, docente da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e autora do livro Bastidores da Expedição Langsdorff (2014).

Numa dessas ocasiões, os dois trocaram insultos e quase saíram no tapa. Os brigões foram apartados por Riedel, o biólogo alemão. Mas Rugendas acabou expulso da expedição e, em seu lugar, foi contratado o francês Aimé-Adrien Taunay. Ao voltar para a Europa, Rugendas violou o contrato assinado com Langsdorff e levou na bagagem 500 desenhos produzidos no curso da viagem.

Pintura de Moritz Rugendas, 'Cachoeira de Ouro Preto'
Pintura de Moritz Rugendas retratando a Cachoeira de Ouro Preto / Reprodução de imagens Pablo Diener – Tratamento Entrelinhas Editora

Percalços e perigos da expedição Langsdorff

“Apesar do orçamento generoso e da equipe maravilhosa, Langsdorff não contava com uma série de percalços. Já imaginou atravessar rios encachoeirados a bordo de canoas? A travessia do Juruena, no Mato Grosso, foi das mais perigosas. Uma verdadeira odisseia. Muitas vidas se perderam”, afirma a historiadora.

Uma delas foi a de Taunay, em janeiro de 1828. Ao tentar atravessar a nado o rio Guaporé, na antiga Vila Bela (atual Rondônia), o jovem desenhista, de apenas 25 anos, foi levado pela corredeira.

Langsdorff também não escapou ileso. À beira do Juruena, contraiu malária e, em maio de 1828, começou a apresentar sinais de loucura.

“Precisamos apressar nossa marcha. Temos ainda de atravessar lugares perigosos. Se Deus quiser, hoje continuaremos nossa viagem. As provisões minguam a olhos vistos, mas ainda temos pólvora e chumbo”, escreveu ele, pela última vez em seu diário, no dia 20 de maio de 1828. Langsdorff não foi o único. Outros membros da expedição morreram de malária e febre amarela.

A expedição chegou ao fim em 1829, um ano e meio antes do previsto. Os sobreviventes retornaram ao Rio em março, a bordo do navio Dom Pedro I.

Langsdorff regressou à Europa em 1830. Caixas e mais caixas com bichos empalhados e amostras de plantas, entre mais de 800 documentos, permaneceram esquecidos nos porões da Academia de Ciências de Leningrado (atual São Petersburgo) até serem descobertos, por acaso, um século depois, em 1930. Os manuscritos dos diários de Langsdorff foram traduzidos e publicados, pela primeira vez, em 1998.

Os de Riedel permanecem inéditos, guardados na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Terminada a expedição, o biólogo alemão voltou para a Europa, levando parte do material coletado – estima-se que Riedel tenha coletado mais de 100 mil espécimes de plantas. Anos depois, retornou ao Brasil, onde passou a dirigir o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, antes de ir para o Museu Nacional.

“Ao regressar ao Brasil, Riedel não trouxe nada do material coletado. Aqui, no Herbário do Museu Nacional, temos, no máximo, umas dez amostras atribuídas a ele. E não temos certeza de terem sido dele. Já nos herbários europeus, as coletas do Riedel são muito comuns. Em Viena, por exemplo, há milhares de exemplares”, explica o botânico Ruy José Válka Alves, o atual curador do Herbário do Museu Nacional.

Cena da gravação do documentário 'No Caminho da Expedição Langsdorf', em uma comunidade indígena - homens estão sentados tocando um instrumento de sopro longo
Expedição Langsdorf motivou livros, filmes e samba-enredo; na imagem, a gravação de um documentário

Expedição é revisitada em livros, documentário e até samba-enredo

Quase 190 anos depois, a aventura protagonizada por Langsdorff e seus intrépidos companheiros de viagem continua a inspirar uma infinidade de livros – mais de 400, em 10 idiomas -, filmes e até samba-enredo – Langsdorff, Delírio na Sapucaí (1990), da Escola de Samba Estácio de Sá, do Rio.

Um desses projetos foi o documentário No Caminho da Expedição Langsdorff (2000), dirigido por Maurício Dias, sócio-diretor da Grifa Filmes. Em três botes infláveis, Dias e sua equipe refizeram, em 1999, seis mil dos 17 mil quilômetros desbravados pela expedição original, ao longo de um mês.

Do Tietê ao Amazonas, a equipe do documentário visitou tribos indígenas, como os guapós, os apiacás e os mundurucus. Registraram um sem-número de animais, como onças, jacarés e capivaras. “Os mundurucus foram muito acolhedores. Fizeram uma festa bonita, às margens do Tapajós, para nossa equipe”, recorda.

Como não poderia deixar de ser, também tiveram seus perrengues. A certa altura, Dias, o produtor Luiz Oliveira e dois guias bateram com o barco em uma pedra do Juruena, no Mato Grosso, e se perderam do restante do grupo. Durante oito dias, caminharam 200 km em busca de socorro.

“Foi um dos momentos mais tensos da viagem. Ficamos sem comida e comunicação e, o pior, com muitos mosquitos e uma onça nos rondando. Tive muito medo de não sair vivo dali”, relata o diretor, que transformou essa “assustadora experiência” em outro documentário, Perdidos.

A equipe de Dias contou com uma convidada especial: a artista plástica Adriana Florence. Ela é tataraneta do francês Hercule Florence, um dos membros da expedição Langsdorff. A exemplo de seu tataravô, Adriana registrou suas impressões num diário. Voltou da viagem com 130 aquarelas.

Dos seis mil quilômetros trilhados, Adriana destaca dois momentos como os mais emocionantes: a chegada à cachoeira Véu da Noiva, na Chapada dos Guimarães, onde Taunay pintou um de seus últimos trabalhos, Cachoeira do Inferno.

E a travessia da cachoeira Salto Augusto, no Mato Grosso, descrito pelo seu tataravô, em seu diário, como “um lugar impossível de se chegar”. “Cento e setenta e quatro anos depois, foi tão difícil quanto. É um lugar perigoso até hoje. Mas, apesar de todas as dificuldades, nós conseguimos”, orgulha-se Adriana.

Fonte: BBC


Créditos: Ambiente Brasil