Lama misteriosa em ilha vulcânica recém-nascida deixa Nasa confusa

(NASA/NASA)

A superfície da Terra não é contínua. É divida em segmentos sólidos chamados placas tectônicas, que se encaixam como peças de um quebra-cabeças e “flutuam” sobre o manto: uma camada extremamente quente (de até 5000°C), que consiste em rocha incandescente de consistência pastosa, o magma.

O lugar em que duas placas se encontram é um autêntico choque de monstro. Uma fica por cima e se ergue. A outra afunda – um processo chamado subducção. Afundar significa mergulhar no magma escaldante lá embaixo, a profundidades superiores a 100 km. Não é muito gostoso. A azarada, naturalmente, derrete.

Aí a porca torce o rabo: “Parte do magma que se forma, menos denso, sobe para a superfície na forma de lava”, explica à SUPER o geólogo Fábio Machado, secretário-geral da Sociedade Brasileira de Geologia (SBG). Essa lava sobe abrindo caminho pela placa tectônica, derretendo seus trechos mais frágeis. E brota do lado de cima.

Se esse choque de placas em mar aberto, o vazamento de lava na parte de cima da placa forma um vulcão submarino. Vulcões submarinos são cheios de potencial. Conforme a lava que eles expelem entra em contato com a água, ela se solidifica e vai formando um montinho de rocha. Esse montinho cresce mais e mais – pode inclusive, crescer o suficiente para emergir acima da linha da água. Quando isso acontece, temos uma ilha recém-nascida.

Nos últimos 150 anos, só três ilhas nascidas desta forma sobreviveram por tempo suficiente para entrar no mapa. Isso é porque esse tipo de vulcanismo, chamado “vulcanismo de arco de ilha”, é bem violento. Se a lava for mais de 60% SiO2 (dióxido de silício, ou simplesmente sílica, base da areia), a chance de explosões aumenta muito. Gases em excesso geram pressão e não ajudam. Poucas dessas ilhas duram mais do que alguns meses.

Um caso bem recente de vulcanismo de arco de ilha está intrigando a Nasa. No final de dezembro de 2014, um vulcão subaquático no Pacífico, nos arredores do reino-arquipélago de Tonga, entrou em uma erupção pouco amigável. A coluna de fumaça, cinzas, e rocha alcançou 9 quilômetros de altura, e aviões precisaram ser desviados.

Quando o foguetório todo acabou, mais de um ano depois, em janeiro de 2015, havia surgido uma ilha, com cume de 120 metros de altitude. Ela ainda não tem nome, então está sendo chamada pelo nome das ilhas vizinhas: Hunga Tonga-Hunga Ha’apai.

A dita cuja, na contra-mão de todas as expectativas, já está firme e forte há 3 anos, sobrevivendo à erosão causada pelo impacto das ondas com o terreno. Você pode ver um time lapse do crescimento no vídeo abaixo. Essa é a primeira vez que uma ilha substancial nasce sob monitoramento de satélite. É um momento único para a ciência: nunca tivemos tantas ferramentas para acompanhar o fenômeno.

 

Agora, após algum tempo observando a jovem ilha a uma distância segura, a equipe de Dan Slayback, do Goddard Space Flight Center da Nasa, finalmente pôde desembarcar por lá. O surgimento de ilhas é de muito interesse para cientistas planetários – pode nos ajudar a entender a formação do relevo marciano tanto quanto ajuda a entender o relevo terráqueo.

Eles aportaram em uma superfície que, a julgar pelas imagens de satélite, parecia consistir em areia negra (que é de um cinza muito escuro, e pode se formar pela granulação de rochas ígneas). Perceberam que na verdade ela era composta de um tipo de cascalho muito espesso, que machuca pés descalços. Os grãos tinham o tamanho de ervilhas. Algumas plantas, cujas sementes provavelmente foram trazidas no estômago de pássaros, já prosperavam. Uma coruja havia feito um ninho.

O mais estranho, porém, era a lama. Uma lama com jeito de argila, de cor mais clara que o relevo. “Ela é muito grudenta. Não sabemos muito bem o que é, e ainda estamos meio confusos quanto à origem dela. Ela não é composta de cinza vulcânica”, afirmou Slayback em um post de blog que conta sua jornada na ilhota. A lama é expelido pelo cone do vulcão, que se vê ao fundo da foto abaixo:

(Dan Slayback, Goddard Space Center/NASA)

A erosão nos paredões de rocha vulcânica é bastante intensa – assim, estima-se que a ilha vá durar 30 anos. É pouco em relação à longa história da Terra, mas é tempo mais do que suficiente para cientistas acompanharem como a é a infância de um pedacinho de chão. A equipe da Nasa usou drones e equipamentos de GPS extremamente precisos para aperfeiçoar a precisão das informações que o satélite já havia coletado.

“O objetivo é pegar as imagens de satélite e associá-las a um ponto de referência conhecido, de preferência uma elevação vertical”, explica Slayback. “O software que gera os mapas 3D não funciona bem em lugares remotos como este. Às vezes você está lá de pé com o GPS, olhando para a água, e ele te diz que você está em uma elevação de quatro metros. E você precisa dizer que não, que você está no nível do mar.”

Boa sorte, ilhazinha. A SUPER espera que você dure um pouco mais que 30 anos – seria legal te visitar depois que as árvores crescerem.

Fonte: Super Interessante


Créditos: Ambiente Brasil

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