Desistência do Brasil em sediar evento sobre o clima gera críticas

Seca registrada em Sobradinho (BA) (Foto: Wikimedia Commons)
SECA REGISTRADA EM SOBRADINHO (BA) (FOTO: WIKIMEDIA COMMONS)

No próximo domingo, dia 2 de dezembro, começa em Katowice, na Polônia, a 24ª Conferência das Partes da Convenção do Clima das Nações Unidas, popularmente conhecida como COP-24. O evento, que acontece anualmente, serve para que as lideranças internacionais se reúnam para implementar acordos sobre o aquecimento global, como o Acordo de Paris.

Ao final da última edição do evento, o Brasil anunciou sua intenção de sediar a 25ª edição da COP, a ser realizada em 2019. Isso mudou na última terça-feira (27), quando o Itamaraty comunicou oficialmente ao Secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima que vai retirar sua candidatura.

“Tendo em vista as atuais restrições fiscais e orçamentárias, que deverão permanecer no futuro próximo, e o processo de transição para a recém-eleita administração, a ser iniciada em 1º de janeiro de 2019, o governo brasileiro viu-se obrigado a retirar sua oferta de sediar a COP 25″, disse a nota.

Apesar de alegar o corte de gastos, muitos viram a atitude como um dos primeiros atos do futuro ministro das Relações Exteriores do governo Jair Bolsonaro, Ernesto Araújo, que recentemente assinou um artigo no jornal paranaense Gazeta do Povo em que afirma que o “alarmismo climático” é ideológico.

Diversas organizações se manifestaram após o anúncio. Em nota, o Observatório do Clima afirmou: “Visto que há algumas semanas a administração Temer comemorava a confirmação da candidatura do Brasil como sinal do ‘papel de liderança mundial do país em temas de desenvolvimento sustentável’, a reviravolta provavelmente se deve à oposição do governo eleito, que já declarou guerra ao desenvolvimento sustentável em mais de uma ocasião. Não é a primeira e certamente não será a última notícia ruim de Jair Bolsonaro para essa área”.

“Com o abandono da liderança internacional nessa área, vão-se embora também oportunidades de negócios, investimentos e geração de empregos. Ao ignorar a agenda climática, o governo federal também deixa de proteger a população, atingida por um número crescente de eventos climáticos extremos. Estes, infelizmente, não deixam de ocorrer só porque alguns duvidam de suas causas.”

Fabiana Alves, especialista da campanha de Clima do Greenpeace Brasil, adotou discurso semelhante. “O gesto é uma clara demonstração da visão de política ambiental defendida pelo novo presidente, que revela ao mundo o que já havia dito aos brasileiros durante a campanha eleitoral; em seu governo, o meio ambiente não é bem-vindo.”

Para ela, virar as costas para este problema é, antes de tudo, virar as costas para as populações mais pobres: “São elas que sentirão primeiro os efeitos de um planeta mais quente, com consequências graves como a escassez de água e dificuldades para a produção de alimentos”.

De acordo com o diretor-executivo do WWF-Brasil, Mauricio Voivodic, a decisão de não realizar a COP no país passa ao mundo um sinal de que o novo governo não enxerga como prioritária a agenda de combate às mudanças climáticas, o maior desafio que o planeta enfrenta.

Em nota, a entidade disse esperar “que esta decisão não implique em um menor protagonismo do Brasil no Acordo de Paris ou um menor compromisso com as já assumidas metas de redução das emissões brasileiras””

“Com uma economia fortemente apoiada no uso de recursos naturais, minimizar os efeitos, e as medidas de enfrentamento às mudanças climáticas, poderá gerar sérias implicações a uma trajetória de desenvolvimento sustentável. A segurança climática do país e do planeta, assim como a qualidade das vidas de todos nós dependem disso.”

Fonte: Revista Galileu


Créditos: Ambiente Brasil