Derretimento de permafrost ameaça plano de resgate climático, diz estudo

Derretimento de permafrost ameaça plano de resgate climático, diz estudo
O metano e o CO2 retidos nos resíduos congelados da Rússia, Canadá e norte da Europa são equivalentes a 15 anos de emissões provocadas pelo homem – AFP

As metas globais que visam afastar o aquecimento planetário descontrolado poderiam ser ultrapassadas antes do esperado, conforme os gases liberados pelo derretimento do permafrost ameaçam minar os esforços humanos para evitar o desastre climático, alertaram especialistas nesta segunda-feira.

Sob o atual plano de resgate, delineado no tratado climático de Paris de 2015, os países concordaram em limitar o aumento da temperatura global abaixo de dois graus Celsius e, se possível, de 1,5ºC.

Esse curso de ação pressupõe que lidar com os gases de efeito estufa produzidos pelo homem – seja desacelerando suas emissões ou removendo-as da atmosfera – será suficiente para controlar o aquecimento global.

O que os modelos climáticos não permitem são cenários nos quais a Terra começa a contribuir para o problema, mostra uma nova pesquisa.

Uma equipe de especialistas do Instituto Internacional para Análise de Sistemas Aplicados na Áustria (Iiasa) disse nesta segunda-feira que incluiu pela primeira vez as emissões projetadas do derretimento do permafrost nos modelos globais de mudança climática, e os resultados geraram preocupação.

“A liberação de carbono do permafrost é causada pelo aquecimento global e certamente diminuirá o orçamento de CO2 que podemos emitir para permanecer abaixo de um certo nível de aquecimento global”, disse o pesquisador do Iiasa e principal autor do estudo, Thomas Gasser.

Como a dependência dos combustíveis fósseis persiste, os cientistas calcularam que é provável que “excedamos” as metas de temperatura do acordo de Paris no curto ou médio prazo.

Com apenas 1ºC de aquecimento acima dos níveis pré-industriais até agora, o permafrost do mundo já está descongelando, ainda que lentamente.

Mas a taxa desse derretimento certamente acelerará à medida que a Terra continuar a aquecer.

Gasser advertiu que o cenário das metas excedidas deixaria o planeta ainda mais vulnerável às emissões do permafrost e, em um ciclo vicioso, ainda mais aquecido.

Efetivamente, sob alguns modelos considerados no estudo, publicado na revista Nature Geoscience, nós já ultrapassamos a meta de 1,5ºC como resultado das emissões do permafrost.

A ultrapassagem do limite “é uma estratégia arriscada, e voltar aos níveis mais baixos após a ultrapassagem será extremamente difícil”, disse Gasser à AFP.

“Temos que nos preparar para a possibilidade de nunca mais voltarmos a níveis mais seguros de aquecimento”.

– ‘Temperaturas mais altas, maior risco’ –

O metano e o CO2 retidos nos resíduos congelados da Rússia, Canadá e norte da Europa são aproximadamente equivalentes a 15 anos de emissões produzidas pelo homem no nível atual.

O problema com os objetivos de Paris, segundo Gasser, é que eles estabelecem metas de emissões com base na suposição de que a temperatura global e os níveis atmosféricos de CO2 mudam simultaneamente.

Eles, portanto, permitem que os países excedam as metas com a condição de que carbono suficiente possa ser capturado do ar para fazer as temperaturas descerem de novo até o final do século.

Mas o permafrost está sujeito ao que os cientistas chamam de “tipping point” (ponto de ruptura), o que significa que além de um certo limite de temperatura, ele continuará derretendo e liberando gases de efeito estufa, em um ciclo de feedback autoperpetuante, independente da queda dos níveis de emissão.

Os modelos não responderão por esses gases de efeito estufa adicionais, principalmente metano e dióxido de carbono.

“Sem nem mencionar o debate sobre se poderíamos ou não capturar CO2 em uma escala grande o suficiente, há também o risco de que quanto mais alto formos, maior o risco de desencadear algo que não entendemos”, disse Gasser.

Enquanto o mundo luta para frear a poluição provocada pelo carbono que amplifica a probabilidade e intensidade de tempestades, ondas de calor e secas mortais, o estudo desta segunda-feira vai aumentar os temores de que a própria Terra poderia sobrecarregar os esforços para limitar a mudança climática.

Outros possíveis “tipping points” climáticos incluem o derretimento do gelo marinho, que cria água do mar que absorve em vez de refletir a luz do sol, e o desaparecimento das florestas – que levaria à liberação de bilhões de toneladas de carbono quando a biomassa absorvente de CO2 fosse perdida.

Fonte: AFP

Créditos: Ambiente Brasil