Barão de Cocais: após alerta, cidade mineira se prepara para possibilidade de ruptura de barragem

Reprodução de imagem de satélite da mina de Gongo Soco, perto de talude que apresenta deformação e pode impactar barragem a 1,5 km
Reprodução de imagem de satélite da mina de Gongo Soco, perto de talude que apresenta deformação e pode impactar barragem a 1,5 km

“As pessoas estão em alerta, mas nada de pânico”, assegura o vice-prefeito da cidade de Barão de Cocais (MG), de cerca de 30 mil habitantes – avisados nesta semana sobre o risco iminente de rompimento de uma barragem no município, localizada a cerca de 10 km da parte central da cidade.

“Considerando outros (episódios de) rompimento de barragens, o material chegaria no centro de Barão de Cocais em uma hora e meia. Seria tempo suficiente para as pessoas serem avisadas e orientadas”, disse Lourival Ramos, pelo telefone, à BBC News Brasil.

A população foi convocada para participar neste sábado de um simulado de evacuação, que será realizado pela Vale – dona da mina de Gongo Soco – em conjunto com a Defesa Civil.

Foi a própria Vale que informou órgãos públicos, no início desta semana, sobre o risco de ruptura da Barragem Sul Superior da mina nos próximos dias – se mantida a velocidade de deformação de um talude (terreno inclinado, natural ou artificialmente) próximo à barragem, que poderia gerar o rompimento, o acidente poderia ocorrer mais precisamente entre 19 e 25 de maio.

Em nota, a Vale afirmou que “não há elementos técnicos até o momento para se afirmar que o eventual escorregamento do talude (…) desencadeará gatilho para a ruptura da Barragem Sul Superior”, mas que, ainda assim, o nível de alerta foi reforçado.

Para Ramos, os órgãos públicos, a população e a empresa estão preparados para um eventual acidente. Ele diz que não deixará a cidade nos próximos dias, mas, como precaução, preparou com a família uma bolsa com itens essenciais, como produtos de higiene e roupas.

Outros moradores que conversaram com a BBC News Brasil, no entanto, relatam apreensão na cidade – intensificada desde que a Vale notificou o Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) sobre a deformação do talude.

“O medo está nos olhos das pessoas. Muitas famílias estão deixando a cidade e indo para Santa Bárbara e outras cidades próximas”, relata Fernando Batista, de 38 anos, ele próprio trabalhador do setor da mineração, mas em outra empresa.

“Preciso continuar em Barão de Cocais por conta do meu trabalho. Vou deixar minha filha e esposa em Itabira (outra cidade mineira, onde Fernando nasceu e tem família) e volto para trabalhar, pois no momento não tenho opção.”

Fernando Batista sorri ao lado da esposa
Image captionFernando Batista ao lado da esposa; vida da família foi alterada desde fevereiro, com alerta emitido para barragem

Alerta em fevereiro

A apreensão relatada por Fernando, porém, não é de hoje. Cerca de 500 moradores dos distritos de Piteiras, Socorro, Tabuleiro e Vila do Gongo, parte de Barão de Cocais e mais próximos à barragem, foram evacuados às pressas de casa na madrugada de 8 de fevereiro – duas semanas após o rompimento de uma barragem da Vale em Brumadinho, que matou 240 pessoas.

A evacuação foi realizada por determinação da Agência Nacional de Mineração (ANM) após uma inspeção na Barragem Sul Superior.

A ANM acionou o nível 2 de emergência – na escala, este é anterior ao nível de maior risco para barragens, o 3. O nível 3 veio no mês seguinte, no final de março, e está ativo desde então.

Segundo o vice-prefeito, hoje os distritos de Piteiras, Socorro, Tabuleiro e Vila do Gongo estão vazios e cerca de 160 famílias estão vivendo em hotéis e casas alugadas pela Vale.

“Socorro era um distrito com bastante gente, comércio, uma igreja católica visitada por muitos turistas. Hoje, está tudo parado”, lembra.

Desde fevereiro, Fernando Batista conta ter ficado um tempo afastado da filha e da esposa, alocadas em Itabira, e mudou de imóvel em Barão de Cocais – buscando uma casa mais alta, fugindo de uma eventual lama de rejeitos da mineração.

A microempreendedora Cristina Vieira, 34, mora na chamada zona secundária de risco – ela fica a uma rua de uma área já bloqueada desde fevereiro e que será mais rapidamente afetada em caso de rompimento. Sua vizinhança está mais vazia, com algumas casas abandonadas desde fevereiro por seus moradores. Ela, casada e mãe de duas filhas, de 2 e 15 anos, diz que a família não pretende deixar a casa – mas já se organiza em caso de emergência.

“A cada hora do dia, a gente conversa entre si: se o alarme tocar, nos encontramos no ponto tal. Já falei para a minha filha mais velha que, se algo acontecer, vou buscar a mais nova e depois nos encontramos em um local combinado”, relata.

Portal mostra logo da Vale e dizeres 'Complexo Minas Centrais - Mina Gongo Soco'
Image captionMina perto da Barragem Sul Superior está paralisada desde 2016

‘Evacuação abrupta e assustadora’

A atividade na mina de Gongo Soco, ao lado da qual está o talude em deformação e que pode afetar a Barragem Sul Superior, a 1,5 km, está paralisada desde 2016.

Batista diz que, por isso, os moradores não imaginavam que a barragem poderia trazer algum risco.

Mas em fevereiro veio o susto, e, por ele, a Vale teve R$ 50 milhões bloqueados pela Justiça em março a pedido do MP-MG e da Defensoria Pública do Estado.

“Conforme apurado, a evacuação ocorreu de forma abrupta e assustadora, durante a madrugada, causando pânico nos moradores locais, que deixaram os pertences e foram deslocados para o ginásio poliesportivo de Barão de Cocais”, diz um comunicado do MP-MG.

Fonte: BBC


Créditos: Ambiente Brasil

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