Após décadas nas mãos das FARC, floresta colombiana está aberta para exploração

Uma equipe de cientistas procura por corujas em uma floresta remota da Colômbia, que só pôde ser averiguada após anos de conflito. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)

MUNICÍPIO DE ANORÍ, COLÔMBIA Isolados de todos por mais de 40 anos, a não ser de um pequeno grupo de guerrilheiros armados, 520 quilômetros quadrados de algumas das mais ricas florestas tropicais do planeta foram recentemente abertos para que uma pequena porção de visitantes sortudos realizassem o levantamento da biodiversidade local.

 

Um helicóptero da ONU decola de um acampamento anteriormente utilizado por rebeldes das FARC, alguns dos quais estão levando cientistas até a floresta. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)

A expedição aconteceu no município rural de Anorí, quase 130 quilômetros ao nordeste da segunda maior cidade da Colômbia, Medellín. Ela reuniu uma equipe de guerrilheiros desmobilizados das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), pesquisadores universitários, pacificadores da ONU e membros da comunidade local.

O plano? Realizar o levantamento em uma floresta tropical de espécies de plantas, aves, mamíferos, insetos, répteis e anfíbios que, até 2017 e, em alguns aspectos, até hoje, é praticamente inacessível para o mundo exterior.

Biólogos examinam uma espécie de tarântula colombiana que encontraram, a Xenesthis immanis. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)
A espécie colombiana é uma grande tarântula com uma população que é pouco conhecida. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)
Juan Fernando Diaz, especialista em mamíferos e líder da expedição, retira cuidadosamente um morcego da rede com a ajuda de dois ex-rebeldes das FARC. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)
Os morcegos são alguns dos mamíferos menos compreendidos, mas exercem funções vitais em seus ecossistemas. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)
Juan Camilo Arredondo, herpetologista da expedição, examina um pequeno sapo que ele acredita ser da família Centrolenidae, mas que requer mais pesquisas. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)
Cientistas fotografam uma Xenodon rabdocephalus, ou falsa fer-de-lance, uma cobra opistóglifa venenosa. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)
A Bothrops punctatus é uma espécie de crotalínea venenosa. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)
Cientistas capturaram este grilo, da família Tettigoniidae, em seu período de muda. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)

A Colômbia apresenta o segundo maior índice de biodiversidade do mundo, atrás apenas do Brasil. E o município de Anorí se encontra em meio a dois polos de biodiversidade.

“Em termos de biodiversidade, estamos em um lugar espetacular. Quando observamos o mapa da biodiversidade da Colômbia, vemos que há dois lugares que se destacam: os Andes e a região de Chocó, no Pacífico”, diz o professor de biologia Juan Fernando Diaz. “Anorí fica localizado exatamente onde os dois se encontram”, ele diz, o que foi conveniente para a localização de muitas espécies, sendo algumas delas possivelmente novas.

Dois biólogos da equipe cruzam o rio em tirolesas utilizadas pelos agricultores todos os dias. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)

A conservação deste “milagre da biodiversidade” foi uma consequência acidental resultante dos conflitos armados com o maior e mais antigo grupo de guerrilha da América Latina, diz Carlos Ivan Lopera, coordenador regional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Desde a década de 1970, o conflito entre rebeldes esquerdistas, paramilitares de direita e autoridades do estado já matou mais de 260 mil pessoas, com 83 mil ainda desaparecidas e 7,4 milhões forçadas a saírem de suas casas. A situação tornou impossível para biólogos visitarem a área e realizarem o levantamento das espécies da região. Mas um histórico acordo de paz em 2016 permitiu que membros desmobilizados das Farc levassem grupos seletos às florestas remotas, disse Lopera.

Carolina Velez, uma entomologista da expedição, examina uma brilhante borboleta azul conhecida como Morpho helenor peleides. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)
Cientistas utilizam armadilhas como esta para capturar borboletas para pesquisa. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)
Um Machaeropterus regulus, ou tangará-rajado (esquerda), e um Ceratopipra erythrocephala, também conhecido como cabeça-de-ouro, pousam na mão de um pesquisador. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)
A ornitóloga Maria Isabel Castaño trabalha em uma estação para pássaros improvisada no meio da floresta. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)

A presença das Farc em Anorí impediu o desenvolvimento em larga escala, mas impediu também uma desenfreada destruição ambiental.

“O foco desta expedição é desvendar a riqueza natural de tesouros da biodiversidade que não foram explorados por agentes institucionais e cientistas como consequência do conflito armado na Colômbia” diz Lopera. “Sem o acordo de paz e a colaboração com os ex-combatentes, sinceramente, esta missão não seria possível”.

A expedição é uma entre outras 20 promovidas pelo governo colombiano através do programa Colômbia Bio, cujo objetivo é promover a conscientização e o melhor entendimento da biodiversidade e recursos naturais do país. Outro objetivo é o uso sustentável de tais recursos através da ciência, tecnologia e inovação, principalmente em áreas que, como Anorí, mantiveram-se isoladas durante o conflito colombiano.

Um ônibus rural chamado “Chiva” transporta os pesquisadores e ex-rebeldes das FARC de Anorí para La Tirana, onde iniciaram a jornada. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)

Dentro da floresta

A equipe de pesquisa partiu de um acampamento monitorado pela ONU chamado La Plancha em um ônibus Chiva, e passou por casebres de madeira pichados com mensagens que sinalizavam que um grupo rebelde ainda se mantinha ativo na região: “ELN 52 anos de luta… bem-vindos”. O Exército de Libertação Nacional (ELN), o último grupo de guerrilha que restou na Colômbia, vem conduzindo negociações de paz com o governo pelos últimos 18 meses em Havana, Cuba.

Após quatro horas em uma estrada estreita e não pavimentada, a primeira parada foi no vilarejo de La Tirana. O presidente do conselho municipal Ricardo Suárez (que teve seu nome trocado para proteger sua identidade) explicou que a economia local baseia-se na pecuária e na mineração do ouro, boa parte dele ilegal. Ambas as indústrias exercem pressão intensa no ecossistema da floresta.

Uma mula chega ao acampamento com o equipamento para a expedição. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)

Ninguém gosta que tiremos as colheres de suas bocas” diz Suárez. “Seria muito fácil me imaginar sendo ameaçado, ferido ou expulso caso me pronunciasse contra a destruição”.

Conforme um relatório da organização sem fins lucrativos Global Witness, a Colômbia é o terceiro país mais perigoso do mundo para ativistas ambientais, com pelo menos 30 assassinatos apenas em 2017.

Alguns dias depois, a equipe finalmente obteve permissão para entrar na floresta, onde queriam realizar a pesquisa, e partiram na companhia de mulas completamente carregadas.

Estradas cobertas de pedras atravessavam vales profundos e subiam trechos quase verticais, enterrados em uma lama espessa. Cinco horas de caminhada levaram a equipe até seu acampamento, preparado pelo residente Obed Quiroz.

“Vejam o que trouxemos ontem” disse Quiroz, apontando na direção de uma folha de palmeira de tons prateados com folhas em forma de lâminas que radiavam do centro em círculo.

Jorge Blanco Escobar prepara seu equipamento dentro de sua tenda no acampamento da expedição. Blanco Escobar é um agricultor de Solano e faz parte de uma equipe de guias locais que auxiliam a expedição pela selva inexplorada. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)

Dino Tuberquia, professor de biologia da Universidade CES, em Medellín, explicou que a planta seria provavelmente a primeira evidência de uma palmeira Chelyocarpus dianeurus na região, e poderia até mesmo ser uma nova espécie. A palmeira pode crescer até seis metros de altura com enormes folhas circulares que chegam a dois metros de diâmetro. A árvore era conhecida por crescer apenas em uma pequena parte da costa do Pacífico na Colômbia.

Quiroz, que foi criado na região por seus avós, disse que sempre teve um relacionamento especial com as palmeiras.

Obed Quiroz (esquerda) e Lina Bolivar (direita), que fazem parte da equipe de botânicos, dizem que estas folhas se assemelham à Chelyocarpus dianeurus, mas apresentam diferenças morfológicas significativas, sugerindo que podem vir de uma nova espécie. A equipe acredita ter encontrado pelo menos cinco novas espécies de plantas na expedição, mas são necessárias mais pesquisas para confirmar. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)

“Nossa sobrevivência dependia delas” disse Quiroz. “Fazíamos vassouras diretamente das árvores e, com isso, éramos capazes de comprar comida e roupas”.

Quiroz migrou para a extração do ouro, mas gostaria de voltar para a floresta. “Quando meu avô morreu, meu trabalho com as palmeiras acabou” ele disse. “Eu gostaria de voltar a trabalhar com as palmeiras, mas desta vez para protegê-las e conservá-las para as gerações futuras”.

A equipe botânica encontrou uma espécie de palmeira criticamente ameaçada (Ceroxylon sasaimae) na região pesquisada. A espécie icônica havia sido redescoberta na natureza apenas em 2011, e acredita-se que não haja mais que 200 delas em todo o planeta.

A admirável flor pertence a uma vinha chamada Thoracocarpus bissectus. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)

Durante a viagem, a equipe de pesquisa também identificou um camundongo arborícola, dois tipos de palmeiras floríferas e uma espécie de orquídea. Algumas das descobertas podem ser inéditas para a ciência.

Um cientista da equipe procura por vida silvestre na copa das árvores. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)

De olho no futuro

A ex-combatente das Farc Olga Torres, com nome de guerra Monica, diz que espera que as descobertas científicas levem a benefícios a longo prazo para as florestas, os ex-combatentes e a comunidade. Torres imagina que, algum dia, os nativos poderão desenvolver projetos de turismo científico, jardins botânicos, ou um viveiro de plantas para espécies raras locais, que poderiam ser vendidas para colecionadores.

“O estado terá de fazer sua parte na conservação desta floresta, mas não através de medidas repressivas, como a retirada forçada de mineradores ilegais” diz Torres.

“A única maneira de alcançarmos isso será trabalhando unidos para estabelecer uma nova estrutura política e econômica que nos permita colocar comida na mesa sem derrubar a floresta”.

Esta parte da Colômbia é uma das regiões mais ricas em espécies do mundo. Os nativos esperam que seus tesouros naturais sejam protegidos enquanto surgem novas oportunidades econômicas para os habitantes da região, como o turismo e viveiros de plantas. (Foto de Frederico Rios, National Geographic)

Fonte: Taran Volckhausen – National Geographic

Fotos de Federico Rios


Créditos: Ambiente Brasil