Antigos fazendeiros queimavam a Amazônia, mas os incêndios de hoje são muito diferentes

Um incêndio queima uma plantação de mandioca na Amazônia brasileira. As práticas da agricultura antiga desempenham um papel nas atuais queimadas florestais, segundo estudo.
FOTO DE CHARLIE HAMILTON JAMES, NAT GEO IMAGE COLLECTION

Ao longo das partes da Amazônia que estão em chamas, a fumaça está subindo e finas partículas de carvão estão descendo suavemente ao chão. Na última contagem, mais de 93 mil incêndios haviam ocorrido na Amazônia brasileira, uma alta de 60 por cento em comparação com o mesmo período no ano passado, e maior número desde 2010. De acordo com a Nasa, os incêndios desse ano também são mais intensos que nos anos anteriores.

Mas o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (Inpe) mantem registros de incêndios desde 1998, e duas décadas não é muito tempo na vida de uma floresta onde árvores vivem por séculos e humanos a queimam há milênios.

A Paleoecologia – o estudo de ambientes antigos – oferece visões únicas de como os primeiros povos da Amazônia usavam de queimadas na região, os efeitos desses incêndios na ecologia da floresta ao longo dos anos e lições que podem ajudar a prevenir os fogos atuais.

Camadas de carvão enterradas abaixo da superfície da floresta revelam que, durante milhares de anos, os antigos habitantes da Amazônia usavam fogo para limpar o chão da floresta para agricultura – e isso teve um efeito duradouro, fazendo com que essas áreas sejam mais propensas a incêndios hoje. Mas, diferentemente das queimadas atuais, que são usadas para nivelar completamente a floresta, as antigas práticas indígenas deixavam as árvores em pé.

Fogo atinge trecho de floresta amazônica no Acre. A temporada de seca e calor vai de meados de julho até o início de outubro.
FOTO DE MARCIO PIMENTA

Um trabalho sujo

Paleoecologistas colhem amostras dos leitos de rios e do solo e analisam esses pequenos fragmentos de carvão que se acumulam após um incêndio. Essa é uma ciência prática e rústica – equipes enchem os barcos com equipamentos pela da floresta e vão para lagos remotos e então perfuram as camadas de sedimentos até o fundo. A análise por radiocarbono permite que eles datem quando os incêndios ocorreram.

A primeira coisa que essa perspectiva milenar pode nos mostrar é que não há, virtualmente, fogo natural na Amazônia, diz Mark Bush, professor de paleoecologia na Florida Institute of Technology.

“Temos sequências de 4 mil anos sem nenhum vestígio de queimadas na Amazônia ocidental – sem carvão nenhum – e isso não é nas partes mais úmidas da Amazônia”, ele explica.  

A maioria das árvores de florestas tropicais, com suas cascas finas e sistema de raízes superficiais, não podem suportar o fogo – e os animais que lá vivem também não.

“É uma parte da ecologia completamente nova e transformadora,” afirma Bush. “Afeta tudo, do topo à base do sistema, e serão necessários muitos anos para que essas partes se recuperem e sejam reconhecidas como floresta tropical.”

A extensão da influência humana na floresta antes da chegada dos europeus é discutível, mas todos concordam que os incêndios só aparecem quando humanos os causam, Bush diz.

“A marca do fogo é uma marca exclusivamente humana na Amazônia. Ele veio com a agricultura do milho ou da mandioca –quando há fogo você sabe exatamente o que está havendo; são pessoas naquela área,” ele conta.

Florestas inflamáveis

Yoshi Maezumi, bolsista Marie Curie da Universidade de Amsterdã e exploradora da National Geographic, está investigando essa transição em diferentes partes da Amazônia, do Brasil até a Bolívia.

Em um estudo, a equipe de Maezumi coletou sedimentos datados em 8,5 mil anos do Lago Caranã, no estado brasileiro do Pará, perto de onde o rio Tapajós encontra o Amazonas. Os humanos que se estabeleceram na área há 4,5 mil anos começaram a fazer queimadas para abrir espaço para a agricultura, ela diz.

Mas isso não causou uma destruição total. Em vez disso, eles plantavam uma variedade de culturas entre as árvores, aumentando a prevalência  de espécies comestíveis como castanhas brasileiras e açaí, e enriquecendo o solo naturalmente pobre usando uma combinação de composto, resíduos e carvão, criando solos tão ricos que até hoje são procurados por fazendeiros. 

“Não podemos dizer exatamente quantas pessoas viviam lá, mas havia áreas extensas que eram extremamente bem cuidadas,” diz Maezumi. As queimadas eram parte essencial da estratégia do cuidado com o solo.

Os registros de carvão, juntamente com pólen e outros restos de plantas, mostraram que os povos limpavam a área com queimadas frequentes e de baixa intensidade, o que, segundo Maezumi, limitavam o acúmulo de combustíveis e podem ter prevenido incêndios maiores.

Essa manutenção foi importante porque ao alterar a composição da floresta, os antigos amazonenses também a tornaram mais inflamável de propensa ao fogo – mudanças tão profundas que podem ser detectadas ainda hoje.

Crystal McMichael, da Universidade de Amsterdã, fez parte de um estudo que usou sensoriamento remoto para medir a quantidade de água das copas de árvores em diferentes partes da Amazônia.

“Na verdade, conseguimos resultados que não esperávamos,” diz McMichael.

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Eles achavam que florestas férteis, onde gerações pré-colombianas tinham enriquecido o solo – criando a chamada terra preta, ou terras escuras da Amazônia — seriam mais exuberantes que suas vizinhanças.

Ao contrário disso, as árvores nessas áreas tinham copas menos verdes e com menor quantidade de água, principalmente nos anos de seca. Suas árvores também são um pouco menores e têm menos folhagem.

Isso faz sentido, explica Maezumi: “Imagine uma floresta tropical densa, muito escura e úmida, sem luz do sol entrando abaixo das copas. Quando você começa a fazer a limpeza, assim que a luz do sol entra você tem um clima mais seco e temperaturas mais quentes.”

O que acontece agora?

Esse conhecimento traz implicações para o gerenciamento das queimadas modernas – e as especialmente descobertas da paleoecologia podem ser usadas para informar como, quando e onde os incêndios são permitidos na Amazônia.

Apesar de o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, estar sendo responsabilizado  por incentivar as queimadas neste ano, em geral políticas governamentais suprimem o uso do fogo. Em florestas mais secas por interferência humana, isso pode exacerbar o problema, diz Maezumi.

Quando epidemias de doenças após a colonização europeia mataram quase 95 por cento dos habitantes indígenas da Amazônia, as frequentes queimadas de baixa intensidade cessaram – e assim que a vegetação rasteira crescia, aumentava a quantidade de combustível para queima.

Essas florestas inflamáveis – que compõe, talvez, três por cento da Amazônia – podem, assim, atuar como catalisadores dos incêndios florestais, sugere Maezumi, o que os permite espalhar o fogo para áreas de cultivo vizinhas.

“O mundo mais seco, mais quente e mais propenso à estiagem que enfrentamos – um mundo onde humanos causam incêndios – o que podemos fazer? Podemos identificar as áreas que são as mais vulneráveis, como essas florestas que eram cuidadas por povos pré-colombianos, e marcá-las como zonas de alto risco.”

O importante, diz McMichael, é que as queimadas antigas não podem usadas para justificar os incêndios modernos.

Humanos podem ter queimado partes da Amazônia durante milhares de anos, mas os registros de incêndios analisados até agora indicam que a escala de destruição da floresta no século 21 é provavelmente sem precedentes.

Os sedimentos que Maezumi coletou do Lago Caranã mostram que o depósito de carvão no leito do lago nas últimas décadas é quatro vezes maior que o período de pico do período pré-colombiano.

Isso pode significar que não há nada nos registros do carvão que possa nos dizer que acontecerá no futuro, diz McMichael.

“Os incêndios que vemos no registro paleo são temporariamente menos frequentes, parecem ser menos extensos e não aconteciam em todos os lugares. Então, na verdade, não sabemos o que acontecerá se começarmos a queimar muitas dessas outras áreas,” diz ela.

Fonte: Kate Evans – National Geographic


Créditos: Ambiente Brasil

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